Eu digo sempre bem menos do que queria.
Ou mais, Bote bem mais nisso.
Um dia, exagero.
No outro, peco pela falta.
Sorrio demais quando deveria ter dado mal e mal um sorrisinho fechado.
Choro de menos quando deveria ter me derramado em lágrimas.
Sou levemente boazinha quando deveria ter dado não só ombro, mas colo.
Dou amor quando não recebo, desapareço quando deveria estar, estou quando deveria me esconder.
Levo bronca por reafirmar para mim mesma que não fui feita para o amor. Eu não acredito nisso, mas afirmo. É uma espécie de defesa. Mas tem a maior cara de ataque. Contra mim mesma, é claro.
Apaixono-me mais depois que o amor já passou.
Corro atrás de quem não se deixa pegar.
Fujo a léguas de quem me persegue.
Às vezes, só às vezes, fico parada. Morro de pressa, mas espero acontecer.
Não procuro nada básico, nem roupa, nem relacionamento. Mas me perco na complexidade da vida, achando que deveria ter querido algo mais simples.
Procuro uma mão para segurar quando ela se esconde dentro de um bolso.
Fotografo paisagens vazias, sem cenas de mim. Aliás, nunca estou nas minhas fotos. Seguro demais a pose, mesmo sabendo que ela dura menos tempo do que o de um flash.
Quando eu quero que as coisas funcionem, elas dão pau. O secador de cabelo. Tudo colapsa justamente naquele dia em que eu quero secar a franja.
É no dia de Ano Novo que eu adoro o Natal.
Divirto-me com uma viagem quando já voltei para casa.
Adoro carne, mas morro de dó.
Sempre quero uma rasteirinha quando estou de salto.
Sempre quero o perfume cítrico quando resolvi sair de casa cheirando a tutifruti.
Não suporto exercícios físicos, mas não deixo de querer outra barriguinha no lugar da minha todo dia antes de dormir.
Adoro qualquer tipo de manifestação artística. Sempre acho que levo jeito para todas e qualquer uma delas. Mas canto mal, desenho mal, pinto tão bem quanto uma maritaca, nunca aprendi a ler partituras, larguei a faculdade achando que vou provocar delírios quando, no máximo - se o dia estiver bom - faço uma pessoa rir. Uma. Geralmente minha mãe.
Sou fascinada pelos mistérios do universo. Queria ter sido astrônoma, astrobióloga, qualquer coisa que começasse com astro e oferecesse um cargo na NASA. Mas nunca tirei nota maior do que 6,0 nas provas. Não faço ideia do que seja um ampere. Afinal, para que eu precisava dessa porcaria toda se queria estudar... Letras, certo?
Amei umas vezes para sempre.
Terminei namoros que, jurei, jamais teriam fim.
Já quis estar em todos os lugares do mundo sem precisar sair da minha casa.
Se está curto, quero comprido. Se liso, enrolado.
Se sozinha, preocupada. Se acompanhada, magrela.
Eu sei cuidar de cachorro, mas preciso aprender a aceitar algumas coisas, algumas pessoas e alguns lugares como eles são. Preciso muito aprender a parar de imaginar “como seria se”.
E assim eu sigo.
Às vezes, dizendo mais do que queria.
E aí, quero acreditar em mim. Em você. Em qualquer coisa.
Quero acreditar...
Quando sei que o que me dá mais prazer nessa vida é duvidar.
Essa vida viu, Zé. Pode ser boa que é uma coisa. Já chorei muito, já doeu muito esse coração. Mas agora tô, ó, tá vendo? De pedra. Nem pena do mundo eu consigo mais sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja. Bate aqui no meu peito, Zé? Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço, Zé? Desculpa!
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